07 fevereiro, 2008

Verdades Provisórias

Amigos, o Blog a Dois acabou se transformando no Blog "Verdades Provisórias", com o mesmo objetivo de comentar fatos e idéias. Minhas postagens neste blog foram todas copiadas para o novo espaço. Quero agradecer à Dora, minha amada esposa, que, em 2005, aceitou a idéia de escrever um blog a dois. As circunstâncias não permitiram realizar esse projeto, mas tanto eu como ela acreditamos que essa idéia pode se viabilizar mais adiante. Por enquanto, fica o convite para acessar meus textos no Verdades Provisórias e a expectativa de que usem o novo blog como um espaço para a troca de idéias.

02 setembro, 2007

Voyagers 1 e 2: 30 anos viajando no espaço

Duas naves espaciais voam há 30 anos, afastando-se gradualmente do Sistema Solar, mas ainda funcionam, estabelecendo comunicação com a Terra. As naves Voyager 1 e 2 foram lançadas em agosto e setembro de 1977 com o objetivo de fornecer informações sobre planetas como Júpiter, Saturno, Urano e Netuno.
Hoje a Voyager 2 está a 12,5 bilhões de quilômetros e a Voyager 1 a 15,5 bilhões de distância do Sol, numa região que marca a fronteira entre o Sistema Solar e o espaço interestelar. Ambas espaçonaves carregam instrumentos científicos que permitem estudar o vento solar, campos magnéticos e ondas de rádio enquanto cruzam por uma região do universo onde nenhum ser humano ou espaçonave jamais esteve.
As naves Voyager estão longe demais para usar energia solar. Elas consomem o equivalente a uma lâmpada de 300 watts e retiram sua energia de geradores termoelétricos de radioisótopos, uma espécie de bateria de longa duração. As Voyager estão tão longe da Terra que os comandos enviados pela NASA, mesmo viajando à velocidade da luz, demoram 14 horas para chegar até a Voyager 1 e 12 horas para alcançar a Voyager 2.
Ambas espaçonaves transportam uma cápsula do tempo com saudações, imagens e sons da Terra, incluindo orientações sobre como chegar ao nosso planeta, caso sejam recuperadas por alguma civilização extraterrestre. Por enquanto, elas seguem solitárias, na imensidão do espaço sideral. Um dia, daqui a alguns bilhões de anos, quando o Sistema Solar se desfizer, naves como as Voyager 1 e 2 provavelmente sejam os únicos registros de que houve um lugar chamado Terra e uma civilização humana. E eu fico me perguntando se haverá alguém que lerá as mensagens que lançamos em nosso infinito oceano-universo...
Maiores informações a respeito podem ser conferidas no site da NASA.

29 julho, 2007

Cabo Verde

Sal, Maio, Fogo. Que sabemos nós de Cabo Verde?
Como podemos saber se não nos damos conta nem das vidas das pessoas que moram nos bairros e vilas ao nosso redor?
Depois de alguns anos, viajo para uma cidade próxima e sigo por uma estrada pela qual não andava há muitos anos, uma rodovia que corta os subúrbios de várias cidades da região metropolitana. Quase não acredito no que vejo. Onde antes havia campos e fazendas, agora há casas e mais casas, ruas e mais ruas, que se estendem para além de onde a vista alcança. Por alguns segundos, percebo um mundo que é muito maior do que minha mente e meu coração. Ali não há apenas casas e ruas: são milhares de consciências, com seus desejos, sonhos, temores e lembranças, milhares de pessoas que eu e tu solenemente ignoramos e para as quais igualmente não existimos. Elas vivem, como eu e tu. Elas existem.
Cabo Verde está tão longe... Quinhentos quilômetros separam o arquipélago da costa da África. A África estão tão longe... As 18 ilhas de Cabo Verde parecem perdidas no meio de um Atlântico que nos é puro desconhecimento. Fogo, Maio e Sal são os breves nomes de algumas das ilhas onde habitam cerca de 420 mil almas. Que sabemos deles?
Neste exato momento, fim de noite de domingo aqui, a madrugada de segunda flui lentamente sobre as áridas ilhas de Cabo Verde. Na imensidão da noite, na imensidão do Atlântico, Cabo Verde parece um sonho, um exercício de imaginação. Mas para a criança que acorda neste instante para tomar um copo d'água em Assomada, um pequeno povoado no interior da ilha de Santiago, nada é mais real que seu copo, sua casa, sua família, sua pobreza talvez, sua ilha. Para essa criança, eu e tu não existimos. Estamos muito além de sua consciência e de seu coração. Para bilhões de pessoas deste planeta, eu e tu não passamos de ilhas longínquas, quase imaginárias, perdidas no oceano da vida. Somos Cabo Verde.

06 abril, 2007

Soma FM: uma rádio

Deve fazer uns seis anos que tenho banda larga e, nesse tempo, a rádio que mais sintonizo para escutar música é a Soma FM, mais especialmente um dos canais desse portal de rádios web com 24 horas de música sete dias por semana: a Groove Salad. Essa emissora se autodefine como sendo "a nicely chilled plate of ambient beats and grooves". Em minhas palavras, é uma rádio que toca um som ambiental contemporâneo que cobre a intersecção entre o new age, a música eletrônica, o rock progressivo, o groove. Não é, em geral, música para se dançar, mas música para se ouvir, para se degustar. Música que serve como a trilha sonora para o meu dia-a-dia.
É difícil encontrar, em lojas brasileiras, algum CD dos grupos que tocam nessa emissora: há desde neo-zelandezes (como o grupo Patio), italianos como The Dining Rooms até alemães como Ulrich Schnauss ou Barbara Morgenstern. Vale a pena também citar The Gentle People, Neotropic, Afterlife, Millenia Nova, Leggobeast, Lemongrass, Jens Buchert, Blackfish, The Verbrilli Sound, AKMusique e Marconi Union.
Há tanta coisa detestável no mundo real e no mundo digital neste início de milênio, mas poder escutar em São Leopoldo uma rádio assim, com som perfeito, embora ela se localize num subúrbio de San Francisco, na California, é uma das vantagens de se viver no século XXI.

18 março, 2007

O Sul

Encanta-me o poema O Sul, de Jorge Luis Borges, escrito quando esse imortal escritor argentino começava sua carreira:

O SUL

De um dos pátios ter olhado
as antigas estrelas,
do banco da
sombra ter olhado
essas luzes dispersas
que minha ignorância não aprendeu a nomear
nem a ordenar em constelações,
ter sentido o círculo da água
na secreta cisterna,
o odor do jasmim e da madressilva,
o silêncio do pássaro adormecido,
o arco do saguão, a umidade
- essas coisas são, talvez, o poema.

Poema colhido no livro Fervor de Buenos Aires, originalmente publicado em 1923.

20 fevereiro, 2007

Sobre a felicidade

Steven Pinker, em seu livro Como a mente funciona (Ed. Companhia das Letras, 1998), dedica algumas páginas (410 a 414) à questão da felicidade.
Ele cita dois psicólogos (David Myers e Ed Diener) que fizeram ampla pesquisa sobre a sensação de felicidade entre norte-americanos ao longo das últimas décadas:
E Myers e Diener observam: "Em comparação com 1957, os americanos possuem duas vezes mais carros por pessoa - além de fornos de microondas, televisores coloridos, videocassetes, aparelhos de ar condicionado, secretárias eletrônicas e 12 bilhões de dólares de tênis de marca novos por ano. Então, os americanos esstão mais felizes do que em 1957? Não estão."
Em um país industrializado, o dinheiro compra apenas um pouco da felicidade: a correlação entre riqueza e satisfação é positiva, porém pequena. Ganhadores de loteria, depois de passar a comoção da felicidade, retornam a seu estado emocional anterior. Do ângulo mais positivo, isso também acontece com pessoas que sofreram perdas terríveis, como paraplégicos e sobreviventes do Holocausto.
(...) O estudo da felicidade muitas vezes lembra um sermão pregando valores tradicionais. Os números demonstram que os felizes não são os ricos, privilegiados, saudáveis ou bem-apessoados; são os que têm cônjuge, amigos, religião e um trabalho instigante e significativo. Essas constatações podem ser exageradas, pois aplicam-se a médias, não a indivíduos, e porque é difícil desenredar causas e efeitos: ser casado pode fazer você feliz, mas ser feliz pode ajudá-lo a casar-se e manter-se casado. Mas Campbell (um pioneiro da psicologia evolucionista) fez eco a milênios de homens e mulheres sábios quando resumiu o resultado de sua pesquisa: "A busca direta da felicidade é uma receita para uma vida infeliz."
Penso no que dizem Pinker e Campbell e me despeço com uma pergunta: se eles têm razão, será que muitos de nós não teríamos de mudar o rumo de nossas vidas?
Até a próxima.

09 fevereiro, 2007

Pedaços

Alimentamos a ilusão da continuidade. Observamos a natureza, e em tudo vemos coesão. Uma semente se transforma em broto, que se transforma em árvore. A fina areia do universo escoa em infinitas ampulhetas por bilhões de anos desde o BigBang... e então temos a Terra. Mais alguns bilhões de anos de evolução, e um organismo unicelular vai se diferenciando, ganhando complexidade, até transformar-se no homem. Pensamos sobre nossa existência e acreditamos existir uma linha conectando cada segundo de nossas vidas, não deixando nenhum momento de fora. As narrativas são assim: romances, filmes, novelas de televisão. Um fato conduz a outro. Causa e efeito. E, na mão de quem desenha a linha, um sentido – um propósito.
Nossos sentidos percebem continuidade. Nossa mente sente-se permanente: sou, essencialmente, o mesmo de um ano, de vinte anos atrás. É da percepção dessa continuidade que se forma nossa sensação de identidade. A vida não pode ser descontínua, pensamos. Meu pensar, meu sentir não podem ser fragmentados, pois, se assim fosse, quem seria eu, quem seríamos nós? Fragmentos que têm uma ilusão de unidade?
Mas é preciso considerar que a verdade segue seu próprio caminho, e não as auto-estradas que preparamos para ela. O fato de que nós sentimos e desejamos uma continuidade não significa que ela exista.
Nossa percepção de cores e sons é limitada pelos nossos sentidos: há cores e sons que nos escapam. A realidade, para cada um de nós, é moldada pelos nossos sentidos e nossos pensamentos. Nossa mente está programada para enxergar continuidade: não fosse assim, como conseguiríamos atravessar a rua ou dirigir um carro? Nós somos tempo: relógios que pensam. Consciência é tempo, tempo é continuidade.
Tentemos deixar momentaneamente nossas mentes de lado. É impossível, mas vamos fazer de conta. Tentemos enxergar o mundo sem nossos pensamentos e desejos... Talvez vislumbremos a possibilidade – “absurda, sem sentido”, diríamos todos nós em coro – de que cada instante é ele próprio, sem nenhum fio que o ligue ao instante anterior e ao próximo...
Sob essa perspectiva, que deixarás de lado tão logo termine de ler este texto, cada instante da minha e da tua vida é completo em si mesmo, não um pedaço que se liga a outros. Instantes soltos, que nascem e morrem antes de serem sentidos. A vida: uma fonte de instantes, brotando incessantemente – o paradoxo da contínua descontinuidade. Se for assim, cada um de nós é, sem saber, o narrador de sua própria vida, tentando incessantemente conectar um instante no outro, costurando-os com o fio de nossas esperanças e crenças. O grande (e inconsciente) propósito de nossas vidas seria, então, o de buscar continuamente que a junção desses fragmentos componha uma narrativa, dando às nossas existências um sentido de que precisamos ardentemente mas que não existe fora de nós.

12 agosto, 2006

Garota ateniense

Houve, 2500 anos atrás, uma garota que nasceu, viveu e morreu em Atenas. Não há qualquer registro histórico de que tenha existido, mas a vida foi tão real para ela como é para ti agora. Aos dez anos, nossa garota brincava de boneca, aprendia a tecer, participava dos festivais religiosos, temia as guerras e à noite orava para a deusa Atena. Sua beleza e sua educação eram o orgulho de seus pais. Seu bom humor era a alegria da família. Posso imaginá-la de túnica branca e sandálias, com seu longo cabelo escuro e seus grandes olhos bebendo a vida, como Ifigênia em Áulis. Posso imaginá-la pensando que o tempo passava muito devagar nas quentes tardes do verão grego. Posso imaginá-la pensando no futuro, em como seria sua festa de casamento, nos filhos que teria. Posso também imaginar os sutis temores existenciais que a assaltavam vez que outra e que ela tentava desfazer na chama de sua politeísta fé.
Essa garota existiu. Seus pais, seus irmãos, seus tios, filhos, netos também existiram. Mas, vê só, tu nada sabes dela, ninguém nada sabe dela ou de sua família. Onde está seu túmulo? Onde está uma referência a ela num livro de história clássica? Nada sobrou de sua existência que tenha chegado à nossa consciência. É verdade que parte de suas cinzas se transformaram mais tarde em videiras, que se transformaram em uva, em vinho, que foi bebido por outra garota, que deu a luz a mais uma moça, num ciclo sem fim. É verdade que o que ela disse ou fez influenciou o pensamento ou o destino de muitas pessoas que com ela conviviam. Mas também é verdade que sua vida se perdeu na história, os rastros de sua existência foram se apagando ao passar de cada segundo, de cada minuto, sob o peso das ações e pensamentos de bilhões de seres humanos que nasceram e morreram depois dela.
Tu me perguntas o que tens a ver com essa menina. E eu te digo que talvez, daqui 2500 anos, tu sejas a garota ou o garoto cuja existência não passe de uma hipótese no raciocínio de gente especulando sobre a passagem do tempo. Pensando bem, não será toda a humanidade, daqui milhões ou bilhões de anos, também uma garota ateniense na história do universo?

05 agosto, 2006

Sem nós

Nem eu nem tu existimos nesse mundo que gira em torno de uma distante estrela, perdida no espaço infinito, fora do alcance de qualquer telescópio. Há manhãs de sol de um tempo parecido com o nosso setembro. Há pássaros, nuvens, montanhas, chuvas, luas. A vida corre nesse mundo, alheia à nossa existência. Segue ela sem o controle remoto de nossa consciência, sem review, sem forward.
Uma árvore projeta sua sombra sobre um gramado ao sol do meio-dia, mas ninguém está lá para ver nem árvore nem sombra. E no entanto elas existem tão concretamente como a cadeira em que tu te sentas agora. O vento acaricia as folhas da árvore solitária, mas não há ninguém para escutar o doce murmúrio desse suave contato. Não há idéia de árvore. Há apenas árvore. Não há sensação de vento. Apenas vento.
Também não há vitória ou derrota, ambição ou humildade, desejo ou resistência. Há apenas vida, sem mim, sem ti. Vida sem nós.

11 junho, 2006

Mais uma segunda?

Como se fosse sereno, a noite vai se depositando lentamente sobre as casas, as árvores e as ruas . Não são seis horas ainda, mas já se podem ver estrelas entre as cinzentas nuvens de um domingo frio de quase inverno. Há beleza no momento, mas tua mente se desloca do presente para o futuro e diz que amanhã a roda do tempo faz mais uma volta: será de novo segunda-feira. As luzes dos postes vão se acendendo agora como se acenderam ontem mais ou menos na mesma hora. É quase inverno, como era quase inverno um ano atrás. É verdade: um domingo termina, como há uma semana. Mas amanhã não voltaremos a viver o que já vivemos. Em meio à ilusão de um tempo circular, como o movimento da Terra em torno do Sol, há a realidade de um tempo que jamais retorna, que segue do desconhecido para o desconhecido e nos encontra como o vento encontra a folha de uma árvore perdida no meio de seu caminho. Talvez haja algum conforto na idéia de um tempo circular, talvez ela nos dê a ilusão de conhecer o dia seguinte, nos permitindo dizer simplesmente que é outra segunda, e dar de ombros... Será mesmo assim? Tua vida e minha vida seguem em frente a cada dia, desde que nascemos. O tempo segue sua trajetória e nos leva, não em círculos, mas à frente, sempre à frente, em direção ao desconhecido. Esse contínuo fluxo transporta a minha e a tua vida, e mesmo a vida da criança que acabou de nascer. Eu não quero te entristecer se vens aqui buscar alguma espécie de ajuda. Não, eu não quero te dar nuvens quando queres sol, mas não posso deixar de descrever o que vejo. Talvez o que eu tenha para te dizer não seja o que gostarias de ouvir, mas eu te digo com carinho: apesar de todas as incertezas, da insegurança que se esconde por detrás de qualquer crença, vejo beleza em seguir o fluxo do tempo, em beber o tempo como quem sorve a pouca água do único cantil que se tem no meio de um deserto sem oásis. Há beleza em ser folha levada pelo vento, em poder ser uma vida num universo que, indiferente às vontades humanas, é só pergunta, é só mistério.
E se me perguntas qual o sentido de tudo isso, é claro que eu não consigo encontrar resposta - o que não significa afirmar a ausência de sentido. Tenho comigo, porém, um pouco de talvez: sim, talvez não devamos ficar buscando o sentido da vida, mas atribuir um sentido às nossas vidas.
Nesse meio tempo, a noite que caía tomou conta de tudo. As nuvens se dissiparam, e a escuridão de um espaço pontilhado de estrelas é o manto que cobre nossas inquietações e esperanças.

27 maio, 2006

Lugares e momentos

Lugares e momentos para se contemplar:
- A madrugada ensolarada de final de junho em Tromso, na Noruega.
- As pessoas e as casas num meio de tarde em Antananarivo, capital de Madagascar.
- Um eclipse total de sol, como o que eu vivi em Santa Catarina, em novembro de 1994.
- O silêncio e a imensidão dos Andes, a 3200 metros de altura, perto de Santiago do Chile.
- Uma chuva de meteoros riscando o escuro céu de um recanto afastado, em Lomba Grande.
- O Monte Wellington impondo sua presença sobre Hobart, a capital da Tasmânia.
- Um cometa com majestosa cauda, visível a olho nu, mesmo numa grande cidade, como o Halley de 1910.
- O tradicional nevoeiro se dissipando na manhã de Walvis Bay, na costa da Namíbia.
- A pacata vida matinal de Vélez Rubio, perdida entre Granada e Alicante, na Espanha.
- O suave vento que percorre o deserto vermelho das planícies marcianas.

02 abril, 2006

Um pouco de poesia e mistério

O silêncio do início de uma noite de domingo nas ruas de meu bairro pode ser eloqüente, dependendo do apuro de meus sentidos, da quietude de minha mente. Em início de abril já é noite às sete horas: resta uma tênue claridade, que rapidamente vai se apagando no poente. Estrelas de outono começam a aparecer silenciosamente. Árvores nas calçadas, sob a mortiça luz dos postes, projetam sombras que conferem um tom de irrealidade ao aqui e ao agora. Nem tudo se pode ver, e o conhecido ganha tons de mistério. De vez em quando um carro cruza o silêncio, que se refaz em segundos, tão logo o som do motor se dissolve entre o sussurro das folhas das árvores, levemente agitadas pelo vento que sopra do mar. Há casas com pessoas; há casas vazias; passando por elas, uma mente que de repente silencia e se abre para a poesia e o mistério que está ali, onde menos se espera. Por alguns instantes, existe apenas contemplação.

17 março, 2006

Saber o futuro

Amigos e amigas, depois de longa ausência, volto a esse oceano virtual em que temos a ilusão de nos encontrar.
O que pensas do futuro? Ele te preocupa? Queiras ou não, tens em ti a consciência humana, que nos faz ver para além ou para aquém do agora. Graças a ela, o presente momento quase nunca é inteiro: parte da nossa mente está sempre enredada nas teias do passado ou tateando as incertezas do futuro.
Por uns momentos, deixemos o passado um pouco de lado, fiquemos apenas com o futuro. Mantemos com ele uma relação ambivalente: frente a um agora sombrio, a esperança no futuro nos consola; porém, o receio do que poderá acontecer amanhã pode nublar o céu azul que nos cobre neste momento. Alguns são menos sensíveis às incertezas da vida, mas muitos de nós - e talvez tu estejas entre eles - se preocupam por não saberem como serão os próximos dez anos ou mesmo como será o dia de amanhã.
As preocupações são criativas e vivem de mãos dadas com a imaginação. Talvez já tenhas pensado em como seria bom saber o que vem lá à frente. Não digo cogitar, digo saber: ter a certeza. Se vieste comigo até aqui, avancemos um pouco mais: imagina que soubesses tudo a priori: cada segundo de tua vida futura conhecido da mesma forma como todos os segundos já vividos por ti. Seria uma vida sem prazeres inesperados, mas também sem frustrações. Ela estaria toda em tua mente, como uma biografia que lemos e relemos até sabermos de cor. Mas, pense bem, antes de sonhar em ter todo esse poder... O futuro apareceria para ti como uma montanha de pedra, imóvel, surdo a todos os apelos para que fosse diferente. O presente continuaria impuro, pois o amanhã estaria sempre em tua mente, não como cogitação, mas como certeza.
Ser humano, ou seja, ter consciência, é a grande tragédia, mas também o grande desafio de cada um de nós. Eis aí a grandeza da humanidade, condenada a poder conceber as mais engenhosas utopias e ao mesmo tempo obrigada a conviver inexoravelmente com os limites do agora e as dúvidas acerca do amanhã.
É por isso que eu te digo: é melhor ser simplesmente humano e viver a beleza de tentar moldar o futuro, de consegui-lo algumas vezes, de se decepcionar outras tantas. Fazendo isso, talvez possamos ver o encanto e o mistério de viver uma história que é escrita à medida que é vivida, uma história que é tanto mais heróica quanto menos garantias temos do que vem à frente.

03 dezembro, 2005

A altura das grades

O presente vai tomando conta da gente, e o passado se desfaz em denso nevoeiro. O real se transforma aos poucos em lenda, em mito. Parece que estamos vivendo em 1984, de Orwell, onde o passado era moldado conforme os interesses do poder, e as pessoas já não mais conseguiam se lembrar se a vida estava melhor ou pior do que há dez ou vinte anos.
O presente se impõe como verdade.
Porém, algo estranho acontece. Caminho pelas silenciosas ruas de meu bairro e de repente me surpreendo com a altura das grades. Lembro subitamente de um esquecido tempo em que podíamos nos sentar na frente de nossas casas. As famílias colocavam as cadeiras nas calçadas e ficavam até tarde conversando sob a luz fraca dos postes nas quentes noites de verão. Não me lembro de grades naquele tempo. Muros, sim. Mas baixos. Não me lembro de medo. Esse tempo existiu realmente? Parece uma ilusão, o desgastado mito da idade de ouro. Mas, contra todas as evidências, minha memória resgata lembranças de uma prosaica utopia que acredito ter vivido.
As trevas não chegaram subitamente. Não houve um dia em que, por decreto, as pessoas se trancaram em suas casas. Não. O perigo foi entrando sorrateiramente em nossas vidas e, com a mesma naturalidade com que aceitamos o frio do inverno, acabamos nos acostumando com a idéia de ficar trancados dentro de nossas casas. As grades foram crescendo em volta de nós como o capim depois da chuva, silenciosamente. Hoje, contemplando o presente com a memória do passado, supreendo-me não apenas com a altura dessas pontiagudas estruturas de ferro, mas especialmente com o fato de que elas se tornaram apenas um dos muitos recursos para tentar manter distante a violência. Acima das grades, cercas eletrificadas. Nas casas, sofisticados sistemas de alarme. Nas calçadas, guaritas com vigilantes particulares. Nas ruas, carros das equipes de segurança privadas. Volto trinta anos no tempo e me dou conta de que não era nada assim. Como esperávamos que fosse o ano 2000? Como seria 2020? Estaria o mundo se preparando para uma nova era? Agora vivemos 2005, o presente nada mais é do que o futuro de outrora, e eu me constranjo em anunciar para os fantasmas do passado que não há boas novas: para crentes e descrentes, não são bênçãos que descem dos céus, mas o medo, que se precipita lentamente sobre nossas casas e vidas como o sereno de uma eterna madrugada.
Crianças e adolescentes crescem nesse cenário e devem pensar que sempre foi assim. Hoje, nós olhamos para as casas e nem reparamos nas grades que as separam das ruas; olhamos para as ruas e nem cogitamos da possibilidade de nos sentarmos nas calçadas, de caminharmos sob o manto das estrelas. O passado se transforma lentamente em ilusão, e a lembrança de outros tempos soa como uma espécie de senilidade.
Caminho sob a luz do sol nas silenciosas ruas de meu bairro. Vejo belas casas. Há jardins, alguns sabiás, raros carros passando. Mas eu me pergunto quanto mais as grades terão de crescer para percebermos que tomamos um caminho errado no passado. Não, não era esse o futuro com que sonhávamos!

06 novembro, 2005

Expectativas

É impressionante a porção de expectativa que pode estar contida no ato de adquirir um livro, depois de algumas resenhas lidas, de comentários acumulados, de um namoro pelas livrarias ou bancas. A gostosa ansiedade apenas levemente saciada pela leitura das orelhas, pelo rápido vislumbre do índice e de umas poucas frases de início de capítulo. A vontade de logo estar em casa, compromissos adiados, no sossego do quarto ou na poltrona favorita, pronto a destilar de cada página insondáveis surpresas. Ah, o prazer de um bom livro! Aquele prazer inconfessável de apoderar-se de um pouco do conhecimento do autor, da emoção do criador. Prazer que se multiplica quando se trata de uma leitura há muito adiada, há tanto desejada. Ou quando acontece em pequenas parcelas, separadas pela rotina de um dia de trabalho e apressadas pela iminência de um novo despertar. Se falo hoje destas coisas é porque estive visitando a Feira do Livro de Porto Alegre e acrescentando alguns novos títulos à lista dos que ainda vou ler. Carreguei para casa algumas porções de instigantes expectativas e bom material para apressar as horas de meus cotidianos dias. Porque vislumbro ao final de cada página um pouco do que ainda posso me tornar, do muito que ainda posso aprender. Agora, com licença, mas quero começar minhas leituras já!

Viver na China

São sete da tarde em São Leopoldo, cinco da manhã em Shanghai. Aqui, primavera; lá, outono. Embora a China freqüente as páginas dos nossos jornais e revistas graças a seu espantoso crescimento econômico, pouco sabemos sobre como vivem as pessoas que estão no centro ou à margem desse desenvolvimento.
Tenho informações de que, lá, os operários trabalham 12 horas por dia, sete dias por semana, folgando apenas nos feriados e recebendo salários entre 50 e 100 dólares mensais. A atividade sindical é proibida, e aqueles que ousam fazer as mais singelas reivindicações são condenados a vários anos de prisão. Um único partido governa o país, a imprensa e a internet são censuradas. O comunismo aliou-se ao capitalismo: do comunismo, permaneceu a ditadura opressora; o capitalismo da China, por sua vez, lembra aquele do início da Revolução Industrial. Por tudo isso, não deve nos surpreender que grandes empresas do mundo todo estejam se transferindo para a China: o custo da produção é muito mais baixo num país em que, por uns poucos dólares, trabalha-se de sol a sol todos os dias da semana e onde o progresso econômico permite agressões ao meio ambiente que não são mais toleradas na maior parte do planeta. Numa economia globalizada, o milagre econômico chinês faz evaporar postos de trabalho no Brasil e em muitos outros países onde o capitalismo precisa conviver com direitos trabalhistas e legislações ambientais. Tudo indica que vai demorar muito para os chineses conhecerem a democracia, pois os ventos da liberdade colocariam em risco o lucro fácil que o capital internacional busca na China.
Para além dos fatos e das opiniões, mantém-se minha curiosidade sobre a vida daqueles que vivem nesse cenário de transformações. Procurei, nos últimos dias, livros sobre a China e encontrei publicações de dois tipos: livros que louvam o milagre econômico chinês e arriscam apresentá-lo como modelo para outras nações (ai de nós!) e livros que apresentam relatos de viagem feitas dez ou vinte anos atrás, precocemente envelhecidos frente a tão aceleradas mudanças. Foi em blogs que consegui encontrar outros olhares sobre a China: é verdade que são visões de estrangeiros, mas pelo menos são olhares contemporâneos, críticos, de gente que está lá, respirando o ar do Oriente. Um repórter do jornal francês Liberation, Pierre Haski, mantém um interessante blog jornalístico sobre a China, Mon journal de Chine - finalista de um concurso da Deutsche Welle sobre os melhores blogs jornalísticos em várias línguas. Um olhar prosaico da vida de um estrangeiro em Pequim pode ser encontrado em China Life Blog, criação de um jovem professor norte-americano, Shawn Matthews, que está há poucos meses trabalhando em uma escola na capital chinesa e conta, com textos e muitas fotos, seu dia-a-dia naquela cidade. Também recomendo um passeio pelo China Blog List.com, site com links para blogs sobre a China. Ainda estou à procura de blogs escritos por chineses em alguma língua que eu possa entender.
Para além das barreiras lingüísticas e da minha preocupação com a perversa aliança chinesa entre comunismo e capitalismo, tenho de reconhecer que é fantástico o potencial dos blogs: se conseguimos separar o joio do trigo, podemos ter contato com uma riqueza de experiências e opiniões que há pouco tempo não iam além de um estreito círculo de relacionamentos e agora se abrem para o mundo. Seria bom poder acreditar que a multiplicação e descentralização dos canais de comunicação ajudarão as causas da liberdade e da igualdade, aqui ou na China. Porém, a história da humanidade parece nos dizer que é mais recomendável um ceticismo com pitadas de esperança do que um idealismo que nega a realidade. Boa noite, Brasil. Bom dia, China.

Domingo frio e chuvoso em São Leopoldo


Apesar de já estarmos em novembro, esta tarde de domingo teve clima de inverno, com chuva, vento e temperatura de 14 graus.

30 outubro, 2005

O domingo e a segunda

É um domingo à noite, a cidade começa a dormir sem poesia ou talvez com os rastros da poesia que agora se dissolve em tua mente. A segunda-feira está logo ali, à espreita, e eu não sei o que esperas dela ou o que ela te reserva. As segundas costumam ter solidez de muralha frente aos devaneios dominicais. O ciclo de uma semana abriga toda a vida. A sexta à noite é cheia de perspectivas; é o começo de um tempo em que se tem alguma liberdade; é momento de pensar em fugas, em revoluções, em utopias. A segunda-feira consome os sonhos ou os coloca em suspensão; uma poderosa e impessoal estrutura entra em ação definindo a posição de cada um no mecanismo que faz o mundo girar. É dessa posição que se fala; é nessa posição que se age... até as dezoito horas da sexta, quando o ciclo se completa, com novas perspectivas voltando a ser vislumbradas enquanto a silenciosa máquina aguarda nossa resignada abdicação das segundas-feiras. A roda vai girando sem parar, semana após semana: um pouco de sonho, muita realidade, leveza de sonho, o peso da realidade... Presos nesse círculo, eu e tu suportamos a aspereza das segundas-feiras não apenas porque enxergamos lá à frente a suavidade das horas do começo de um outro final de semana, mas especialmente porque nada vemos além da roda em que giramos.
Dora e Artur (março de 2005)